Skip to main content

Como psicóloga clínica e pesquisadora na área da Psicologia da Saúde, observo com atenção os impactos emocionais enfrentados por estudantes de Medicina ao longo de sua trajetória formativa. A pressão por desempenho, a carga horária extensa, o contato precoce com o sofrimento humano e a constante exposição a situações-limite criam um ambiente de intensa exigência emocional. Frequentemente, esse cenário desfavorece o cuidado com a saúde mental dos próprios estudantes — justamente aqueles que, em breve, estarão responsáveis por cuidar da saúde dos outros.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) compreende saúde mental como um estado de bem-estar no qual o indivíduo reconhece suas habilidades, é capaz de lidar com os estresses cotidianos, trabalhar de forma produtiva e contribuir com sua comunidade (World Health Organization, 1948). Ou seja, saúde emocional não é apenas ausência de doença: é presença de equilíbrio, autonomia e funcionalidade — pilares essenciais para qualquer profissional, especialmente os da área da saúde.

Estudos na área confirmam o alto nível de sofrimento psíquico entre estudantes de Medicina. Uma pesquisa conduzida por Yusoff et al. (2012) identificou que, já no primeiro ano de graduação, os alunos apresentavam níveis significativos de sofrimento psicológico, independentemente do processo de seleção pelo qual ingressaram na universidade. Esses dados apontam que a vulnerabilidade emocional não está restrita a momentos pontuais, mas pode se manifestar desde os primeiros contatos com a realidade acadêmica.

Nesse contexto, a psicoterapia surge como uma ferramenta essencial. Ela oferece um espaço seguro de escuta, reflexão e fortalecimento emocional. Por meio da psicoterapia, o estudante pode reconhecer suas emoções, aprender a lidar com a ansiedade, desenvolver consciência sobre seus limites e encontrar formas mais saudáveis de se relacionar com os desafios da formação. Esse cuidado não apenas melhora sua qualidade de vida, mas também o prepara para ser um profissional mais humano, empático e presente.

Portanto, cuidar da saúde mental durante a formação médica não é um luxo — é uma responsabilidade pessoal, ética e profissional. Promover o acesso a espaços terapêuticos e fomentar uma cultura de acolhimento emocional dentro das instituições de ensino é investir não apenas no bem-estar do estudante, mas na qualidade do cuidado que ele oferecerá no futuro.
Especialista em Psicologia da Saúde, Psicóloga Clínica CRP01/26034 Rebeca Portela
Referências
World Health Organization. (1948). Preamble to the Constitution of the World Health Organization. Geneva: World Health Organization. https://www.who.int/about/governance/constitution Yusoff, M. S., Rahim, A. F., Baba, A. A., Ismail, S. B., & Esa, A. R. (2012). A study of psychological distress in two cohorts of first-year medical students that underwent different admission selection processes. The Malaysian Journal of Medical Sciences: MJMS, 19(3), 29–35.

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23610547/